sábado, 31 de outubro de 2009

Trailer Book: Noturno

Trailer do livro Noturno, de Guillermo del Toro e Chuck Hogan.

resenha: NOTURNO (Guillermo del Toro e Chuck Hogan)


"Quando era criança e conforme fui crescendo, e cresceno e crescendo, adorava ler boas estórias de vampiro. Nada dessas estorinhas românticas de adolescentes lânguidos chupando o sangue de pessoas bonitas, adoro a crueza das estórias de mortos-vivos, a singularidade desses seres que vagam em busca de sangue fresco..."

É assim que Guillermo del Toro, autor de O Labirinto do Fauno, descreve as razões que o levaram a escrever o mais recente livro de terror vampiresco no mercado (e o primeiro que disser que crepúsculo ou Vampire Diaries são estórias de terror, por favor vá dar uma volta na Manhattan de Noturnos, eu insisto).

Antes de mais nada é preciso tecer um panorama-relâmpago sobre a mudança na visão que os leitores e platéias vem tendo do mito dos vampiros no decorrer dos últimos cem anos.

Os vampiros iniciam o século 20 como velhos pervertidos do Leste Europeu, com capas espalhafatosas, muitos fetiches reprimidos e frequentemente, uma amada falecida, que uma vez reencontrada na Inglaterra, era devidamente roubada de sua família e transforamada para com ele seguri matando pelas noites, ou assim ele planejava.
Porém, os movimentos gótico e punk cobraram sua parcela do mito e então os vampiros passam a ser os jovens góticos sarados, que movidos pelo melhor espirito do mal de siécle (a crise de depressão crônica que afetou a maioria dos poetas no fim do século XIX, tornando suas obras tristes e desesperadas), tão adorado pelos movimentos ditos dark, tornou-se icônico, com vampiros em eterna crise de consciência na dualidade sou imortal X mato para viver. Pouco espaço para o amor, exceto por alguma paixão platônica infeliz no caminho e muita tristeza. Fruto das obras de Anne Rice, deu também origem nos Estados Unidos ao jogo de RPG Vampiro: A Máscara. Não havia mais terror nestas estórias do que em um episódio de Eu, a Patroa e As Crianças, mas havia muita angústia nas personagens dos livros. Já nas mesas de RPG... bem, digamos que os jogadores costumavam acreditar que usar roupas negras e utilizar o linguajar do jogo só conseguiu assustar mesmo alguns pais e educadores, que passaram a considerar o RPG nocivo às mentes jovens, mas as estórias em geral eram estórias de política ou sexo.
E finalmente estas estórias de sexo evoluem para a atua literatura de "não sexo", a versão mais fresca (ainda que nem sempre mais afrescalhada) da literatura e cinema vampirescos, repleta de adolescentes bonitinhos e brancos que nem sequer precisam beber de pescoços humanos para viver e que só querem viver um grande amor, lutar contra outros vampiros que tem inveja deles e passar de ano no colegial de uma cidade interiorana dos Estados Unidos. Os vampiros tornaram-se ideais de amor, um homem para sempre belo, inumanamente forte, capaz de salvar a jovem donzela de perigos mortais e que tornou sua vida caipira incrivelmente emocionante. Ah, e eles ainda tem aquele ar tristonho de cachorrinho perdido.
Na minha opinião esses vampiros não passam de uns pedófilos, isso sim. Cem anos ou mais e ainda só conseguem se apaixonar por adolescentes quase sem peito, com os mesmos sofrimentos de milhões de outras adolescentes que eles já devem ter conhecido... tsc...

Existem basicamente, três formas de se escrever uma estória de vampiros. Seguir a moda do momento em que se está, buscar inspiração nas modas anteriores ou ir diretamente às lendas que geraram a forma como enxergamos o mito e criar algo novo à partir daí.

O livro de Guillermo del Toro faz uma média entre as duas últimas opções. Nele temos alguns clássicos da antiga literatura de vampiros, especialmente do Drácula de Bram Stoker: o velhinho caçador de vampiros de origem européia, o vampiro original como um nobre do leste europeu e até mesmo o incidente que dá origem à tragédia. Entretanto, os vampiros de del Toro em nada se parecem com quaisquer outros antes vistos.

Enredo:

Um avião chega ao aeroporto de Nova York no horário, mas algo de horrível acontece entre o momento em que ele taxia pela pista de aterrissagem e o momento em que os passageiros deveriam descer. Sem qualquer explicação, os cento e noventa passageiros e a tripulação são dizimados, em questão de segundos. O avião é como um navio fantasma, que ancorasse sem viva alma...

(Neste ponto vale uma observação: é uma referência ao romance Drácula, em que o navio Deméter atira-se contra o porto em uma noite sombria da Inglaterra. Quando as autoridades chegam ao local, descobrem que todos os passageiros e tripulantes estavam mortos e que a carga soturna incluia um caixão vazio, exceto por uma grossa camada de terra úmida)

É apenas o começo. Quando as autoridades competentes chegam ao aeroporto, sob a liderança dos agentes do Centro de Controle de Doenças Ephraim Goodweather e Nora Martinez, encontram um cenário macabro, mas para sua surpresa, encontram também quatro sobreviventes. Ou assim pensam...

Já dá para ter uma idéia do que vem por aí.

Qualidades: del Toro e Chuck Hogan acertam em cheio ao desfazer toda a aura glamourosa dos vampiros. Eles são monstros, guiados pelo instinto e pela fome. O contágio se dá por meio de um vírus que se instala na vítima e passa a alterá-los, matando o hospedeiro enquanto toma o controle e os substitui. Durante a primeira semana de mutação, o corpo morre e um ferrão serrilhado surge em sua garganta, capaz de projetar-se até cerca de um metro e meio, mas ainda sem muita agilidade nesta fase da mutação. A habilidade de fala e raciocínio praticamente desaparecem, substituidas por um forte instinto de preservação e uma fome difícil de saciar. Com o tempo e as mutações, eles se tornarão ainda mais perigosos e as habilidades de fala e raciocínio retornarão, mas eles não serã humanos nunc mais, necessidades mundanas como higiene e sentimentos não lhes interressam. O livro, primeiro de uma trilogia, termina ao fim da primeira semana e, como a propaganda promete, não resta muito de Manhattan ao fim deste período.
A forma como as habilidades, limitações e características destes vampiros nos são mostradas no decorrer do livro são uma das suas virtudes. Não há um "professor " sentado à mesa palestrando por páginas e páginas, coisa chata que normalmente é inevitável. Ao invés disso, cada ataque de um vampiro ao decorrer do livro nos mostra algo a mais e assim vamos aprendendo sobre eles e, quando o tal professor vai discursar, o autor simplesmente pula esta parte e prossegue do ponto em que as personagens já sabem tanto quanto nós (ou quase tanto...). Ah, e não há nenhuma grande estória de amor ocupando metade do livro, isto é sempre uma novidade na literatura de hoje.

Problemas: falta um pouco de vivacidade aos confrontos entre seres humanos e vampiros. De todas as lutas, a única que chega a ser emocionante ocorre em plena Times Square. Embora realista, é também decepcionante que fora os personagens principais do livro, o autor visivelmente não planeja que mais ninguém seja capaz de matar ou mesmo fugir de um único vampiro que seja. A repetição desta fórmula e a certeza de que tudo é em vão retira parte do vigro de uma estória de terror, uma vez que a possibilidade de sucesso ou fracasso é o que causa a tensão, não a certeza.

Nota: Roteiro 9
Ação 7
Carisma das Personagens: 7,5

Nota Final: 7,3

Instiga a ler a continuação? Sim